Blog Unicamp Ano 50



A alternativa biocêntrica é discutida por especialistas do Brasil e exterior

24/08/2016 - atualizado em 26/08/2016
Primeira mesa sobre a alternativa biocêntrica. Foto: Antoninho Perri

Pesquisadores do Brasil, Áustria, França e Inglaterra apresentaram nesta quarta-feira seus estudos sobre “Alternativa Biocêntrica”, dentro da série Perspectivas Unicamp 50 Anos, no auditório da Adunicamp. Os especialistas em antropologia social, ciências sociais, estudos de gênero, produção cultural e meio ambiente foram reunidos em duas mesas-redondas: “Crises Ambientais e Decrescimento”, discutindo os debates vigentes nas ciências humanas quanto à alternativa biocêntrica face ao colapso ambiental, com ênfase para o decrescimento e a simetria política entre as espécies; e “Cidadania Ampliada”, analisando um novo pacto entre as espécies sob o enfoque da alternativa biocêntrica.

A mesa da manhã foi coordenada pelo professor Mauro William Barbosa de Almeida, do Departamento de Antropologia da Unicamp, que atua em pesquisas sobre a Amazônia, reservas extrativistas, diversidade social e teoria antropológica. “Vamos discutir o conceito de decrescimento como alternativa para a crise ambiental”, adiantou. É uma ideia que tomou corpo por volta dos anos 1970, quando começaram a aparecer trabalhos de biólogos e economistas principalmente, e de outros estudiosos, apontando para o esgotamento próximo dos recursos naturais associado ao crescimento industrial e da população – e com isso uma perda da qualidade de vida na Terra.”

Mauro Almeida explica que a alternativa biocêntrica se baseia em conceitos vindos de ciências como ecologia, agronomia, física e economia, gerando um debate sobre o que fazer diante desta percepção de uma crise de recursos naturais e perda das espécies de vida. “Uma das alternativas vem dos que dizem que a tecnologia vai resolver tudo, incluindo problemas como de suprimento de energia, com abundância e progresso técnico. É o pensamento otimista de que o mundo deve continuar na mesma rota. A outra corrente aponta para a necessidade de uma contenção da expansão, sendo menos difundida no Brasil, por ser um país que ainda está nessa rota, querendo crescer.”

Segundo o professor do IFCH, a corrente pela contenção é mais forte na Europa, onde certos países estão em fase de estabilidade e até de declínio da população. “Há uma preocupação de reorientar as atividades humanas para a qualidade de vida, com uma estabilidade e não com uma expansão infinita. Esta corrente não é forte em nosso país, mas está presente, por exemplo, na construção de megausinas como a de Belo Monte: temos aqueles que acham que há alternativas menos impactantes e de pequena escala para abastecimento energético futuro, e outra visão antecipando uma demanda muito ampliada de energia para fins industriais, mineração, etc. A alternativa biocêntrica é um movimento que vai crescer neste século em escala mundial.”

O convidado internacional da primeira mesa foi o professor Marc Brightman, diretor do Centro de Antropologia e Sustentabilidade da University College London (UCL), que tem várias publicações sobre governança global da floresta, conservação e cosmopolíticas. “Vou falar, dentre várias coisas, da pesquisa que faço com os estudantes sobre o tema da sustentabilidade e, a partir dela, sobre o que podemos entender como alternativa biocêntrica, a começar por alguns aspectos da crise ecológica mundial. Uma pergunta é se as medidas adotadas por organizações internacionais para proteger populações tradicionais e os lugares onde moram, são elas mesmas sustentáveis, preservando não só a natureza, mas também a convivência com outras espécies.”

A coordenação da mesa da tarde coube à professora Nádia Farage, do Departamento de História da Unicamp e autora de diversos artigos sobre naturismo, animalidade e biopolítica no Brasil moderno. “Vamos tratar, basicamente, sobre a contribuição das ciências humanas e da filosofia, bem como da crítica literária, para repensar a condição animal. É um tema que se articula com o da manhã, pois não há como pensar o crescimento sem repensar a carnificina sobre a qual a produção capitalista se baseia. Se é para haver uma mudança de fato em nossa maneira de estar na vida, ela começa na maneira como nos relacionamos com as outras espécies.”

A mesa da manhã também contou com a presença do professor Luiz Cesar Marques Filho, do Departamento de História da Unicamp e autor de “Capitalismo e Colapso Ambiental”. Do debate da tarde também participaram: Claudia Leitner, da Universität Wien (Áustria), cujas áreas de interesse são literatura, estudos da mídia, de gênero, pesquisa histórica sobre as mulheres, literatura, bioética e ciências da vida, bem como estudos em animais; Fahim Amir, da Kunstuniversitaet (Áustria), autor de artigos sobre produção industrial de animais, trabalho animal e zoopolíticas; e Hicham-Stéphane Afeissa, da Université de Franche-Comté (França), que depois de vários anos estudando a fenomenologia de Husserl e a filosofia Kantiana, voltou seu interesse para a filosofia ambiental.

Galeria de fotos

Ítala D'Ottaviano, da Comissão dos 50 Anos. (Antoninho Perri) 1-6
Nádia Farage coordenou a mesa da tarde: “Cidadania Ampliada”, analisando um novo pacto entre as espécies sob o enfoque da alternativa biocêntrica. 24 de agosto de 2016 (Antoninho Perri) 2-6
Alunos do Centro Paula Souza na plateia (Antoninho Perri) 3-6
Primeira mesa sobre a alternativa biocêntrica: “Crises Ambientais e Decrescimento” (Antoninho Perri) 4-6
Marc Brightman, da University College London (Antoninho Perri) 5-6
Mauro Almeida, da Antropologia da Unicamp (Antoninho Perri) 6-6

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