Blog Unicamp Ano 50



Don Giovanni e outras histórias

Uma volta ao espaço de ensaio revela um perfil resumido de quem se entrega ao canto todos os dias para presentear a aniversariante com uma obra de Mozart

29/09/2015 - atualizado em 29/03/2016
Solistas da Ópera Don Giovanni, de Mozart. Apresentação marca pré-estreia dos 50 anos da Unicamp

Um pouco dos solistas

Eles guardam seus próprios contos, mas traduzem, pelo brilho nos olhos, pela cor da voz e pela expressão corporal a verdade dos personagens tragicômicos criados por Wolfgang Amadeus Mozart ao compor a ópera Don Giovanni, que estreia os festejos pelos 50 anos de criação da Unicamp dia 30 de setembro e 1º de outubro, às 20 horas, no Teatro Municipal de Paulínia. Uma volta ao espaço de ensaio revela um perfil resumido de quem se entrega ao canto todos os dias para presentear a aniversariante com uma obra de Mozart.

Num entrelaçamento de contos, Donna Elvira poderia ser Susana Boccato, a cantora lírica, aluna do professor Angelo Fernandes, que sem antes ter sonhado ser cantora, e sim violinista, decidiu matricular-se na disciplina de coral do curso de graduação em Música do Instituto de Artes da Unicamp. Procurou o canto coletivo porque em 2007, durante a graduação em violino, foi surpreendida por uma imobilidade em um dos dedos da mão direita e, impedida de dar continuidade na formação como instrumentista, não hesitou em experimentar outro instrumento: a voz. Mas ao iniciar o trabalho coletivo, alguém a estimulou a realizar aulas de canto e, por sua determinação, hoje Susana é Donna Elvira. É esta mulher inquieta, que incomoda Don Giovanni durante as inesgotáveis horas de ensaio e até o concerto no qual Susana quase se despede da Unicamp e de Campinas. Ano que vem, Susana, que fala com propriedade e paixão sobre sua personagem, tem cadeira garantida em universidade estadunidense para iniciar o mestrado em música.

A Donna Elvira, ou melhor, a Susana foi incentivada por Kathryn Hartgrove. Isso mesmo, a coordenadora do Festival Internacional de Ópera das Américas, que teve a Unicamp como sede na edição de 2013. Kathryn já levou outros ex-alunos da Unicamp para os Estados Unidos e, concluir com esta aceitação no mestrado e interpretando Donna Elvira em homenagem aos 50 anos da Universidade que conheceu há menos de dez anos é “fechar com chave de ouro”, como revela o largo sorriso de Susana. “Donna Elvira é um misto de emoções. Ela sabe que Don Giovanni é um canalha, mas gosta dele. Ser convidada para interpretá-la e, consequentemente, participar das comemorações dos 50 anos, para mim, é fechar a trajetória na Unicamp com chave de ouro.”

O Comendador, nesse entrelaçamento, faz parte de toda esta história com final feliz de Susana. Melhor explicar: na verdade, Raphael Domeniche é o namorado de Susana na vida real, já o Comendador, seu personagem na ópera, volta à vida real em forma de estátua para também se vingar de Don Giovanni. Raphael ingressou na Unicamp como aluno de regência há dois anos. Também não acreditava em seu potencial como cantor, mas, como acontece com muitos regentes em formação, as aulas de técnica vocal, obrigatórias no currículo de graduação em regência, foram reveladoras até mesmo para o aluno. As atividades na Ópera Estúdio do Instituto de Artes, coordenado pelo professor Angelo Fernandes, tornaram Domeniche um solista. “Eu nunca tive o intuito de ser solista em canto. Isso para mim significa um crescimento dentro da proposta do curso de música da Unicamp.”

Na pausa para um gole d’água na sala de ensaios da Orquestra Sinfônica da Unicamp (OSU), Raíssa Amaral e Daniel Duarte traçam juntos, para a equipe do Unicamp Ano 50, algumas linhas sobre a emoção de participar de uma montagem de ópera no mais verdadeiro sentido. Elogiam a produção geral, até mesmo a equipe responsável pelo figurino da ópera, a qual se surpreendeu ao ver quem era, na vida real, os bonecos com os quais testavam o figurino. “Então, você é o Don Otavio? Você é Donna Anna? Assim eles nos receberam, pois até então trabalhavam apenas com os bonecos. Participar deste grande vento com respaldo de uma produção como a montada para Don Giovanni é importante para nossa formação. Montamos A flauta mágica, As bodas de Fígaro, também de Mozart, mas nós mesmos providenciamos figurino entre outras coisas”, declaram, intercalando elogios em concórdia o tempo todo da conversa.

Tanto Duarte quanto Raíssa foram selecionados para solos logo no primeiro ano do curso de graduação em canto erudito, pois a montagem de Flauta Mágica, por meio do Ópera Estúdio, aconteceu no primeiro ano do curso de canto erudito. Ele, que começou a cantar na infância em Itajubá, Minas Gerais, e ela, que ingressou no canto erudito como cantora do Coro Ernst Mahle, em Piracicaba, São Paulo, pelas mãos de Cidinha Mahle, não escondem o orgulho em cantar com a OSU e o maestro Abel Rocha, da Universidade Paulista Júlio de Mesquita (Unesp), que conheceram em masterclasses de música.

Já que todos têm um tempo para hidratar as cordas vocais, chegou vez de Don Giovanni falar rapidamente sobre sua participação nos 50 anos da Unicamp. Mas, desta vez, falou como Willian Donizetti, barítono selecionado por Fernandes para interpretar o protagonista do enredo de Mozart. Aluno de canto erudito e também integrante do Ópera Estúdio, Donizetti está na Unicamp há dois anos, mas já tem nas mãos, ou na voz, a responsabilidade de fazer o concerto de abertura do Unicamp Ano 50 dar certo. A conversa é encerrada porque o diretor cênico Matteo Bofitto não tem tempo a perder, pois dia 30 é dia de ópera.

Também compõem o time de solistas a soprano Ana Beatriz Machado (Zerlina) e os barítonos Volnei dos Santos (Leporello) e Fernando Barreto (Masetto).



Performance promove crescimento artístico e técnico

O professor de canto do curso de música da Unicamp Angelo Fernandes explica que, embora interpretar os personagens de Don Giovanni seja um grande desafio para os cantores do Ópera Estúdio, a performance desta obra, assim como Le Nozze di Figaro, montada em 2014, tem trazido um grande desenvolvimento artístico e técnico para todos – elenco, membros do coro e assistentes – ampliando seus limites. “A escrita de Mozart, embora altamente dramática em Don Giovanni, é adequada às vozes de jovens cantores, além do que a orquestra exigida é ideal para o tamanho da Orquestra Sinfônica da Unicamp. A junção do canto com outros setores – atuação cênica, cenografia, figurino, danças antigas, iluminação, etc. – completa o que buscamos para nossos alunos: um profundo aprendizado que extrapola as paredes das salas de aula e de ensaio, envolvendo a prática artística coletiva, a teoria e a pesquisa. Este é nosso maior objetivo por meio do Ópera Estúdio Unicamp”, declara Fernandes.

Desde que assumiu o curso de canto da Unicamp, o professor Angelo Fernandes procura investir em realizações que proporcionem aos alunos uma vivência artística de alto nível técnico e musical, por meio do Coro Contemporâneo de Campinas e do Ópera Estúdio Unicamp, ambos dirigidos por ele e formados por alunos do Instituto de Artes. Conforme o professor, a ópera Don Giovanni foi escolhida por se tratar de uma das mais importantes óperas da história. “Os três títulos compostos por Mozart com libreto de Lorenzo da Ponte – Le Nozze di Figaro, Don Giovanni e Cosí fan tutte – marcaram de forma sobremaneira o teatro operístico e fazem parte das temporadas das grandes casas de ópera de todo o mundo até hoje. Segundo nosso diretor musical, Abel Rocha, em nota a ser publicada no programa do espetáculo, ‘com Don Giovanni, Mozart inaugura uma nova dramaturgia, que mescla de forma inusitada a tragédia e a comédia no mesmo espetáculo, com musical e teatral cuidadosamente elaborados’".

Angelo Fernandes está na Unicamp há três anos. Foi aluno de mestrado e doutorado na Universidade. Após o doutorado, foi professor de canto coral e técnica vocal do Instituto de Artes da Unesp por mais de dois anos e retornou à Unicamp em 2012 como professor de canto. “Recebi o convite de dirigir este concerto de abertura das comemorações dos 50 anos da Unicamp com muita alegria. É altamente significativo dar início a tal comemoração com arte! Ainda mais, com um gênero artístico que junta tantos segmentos artísticos em um único espetáculo. É uma honra trabalhar nesta empreitada, fruto da parceria que une alunos do Instituto de Artes, a Orquestra Sinfônica da Unicamp e diversos profissionais das mais diversas áreas”, enfatiza.

Sobre os diretores musical e cênico. Fernandes faz questão de ressaltar: “Preciso registrar o enorme prazer em trabalhar com toda a equipe de nosso diretor cênico Matteo Bonfito. Trata-se de uma equipe enorme altamente competente e ousada que envolve toda a cenografia, iluminação e figurino. Não posso deixar de fora o nome de nosso experiente diretor musical Abel Rocha. Doutor em Música pelo programa de pós-graduação do Instituto de Artes da Unicamp, Abel tem o controle absoluto de todos os detalhes da música e da encenação em todos os seus segmentos. Trabalha de forma generosa, dividindo com todos sua experiência em ópera de mais de 30 anos”, remata.

Fonte: Equipe Unicamp Ano 50

Leia mais




Comentários

comments powered by Disqus

Voltar