Blog Unicamp Ano 50



Ex-reitor Vogt recebe título de professor emérito da Unicamp

Cerimônia de outorga, no Centro de Convenções, contou com a presença da comunidade universitária e de convidados

16/10/2015 - atualizado em 29/03/2016
Ex-reitor Vogt recebe título de professor emérito da Unicamp. (Foto: Antoninho Perri)

O linguista, poeta e ex-reitor da Unicamp Carlos Vogt recebeu no último dia 16 de outubro o título de professor emérito da Universidade, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados à ciência, à cultura e à Universidade. A cerimônia, presidida pelo reitor José Tadeu Jorge, foi realizada no Centro de Convenções da Unicamp e contou com a presença de estudantes, funcionários, docentes e convidados. A concessão da honraria fez parte da programação de comemoração dos 50 anos da Unicamp, que serão completados oficialmente em 5 de outubro de 2016.

Na entrevista que segue, Vogt fala da satisfação por ter recebido a homenagem, relembra momentos de sua carreira na instituição e faz considerações sobre a missão da universidade pública e o futuro do jornalismo. Também faz uma reflexão sobre a ética. “A questão ética não é simples, e é menos simples ainda numa sociedade como a nossa, que é polifônica, multifacetada e fragmentada do ponto de vista dos valores e ideologias. Então, encontrar faróis que joguem luz sobre os comportamentos não é fácil. Quando o mundo é dividido apenas entre bem e mal, isso se torna um pouco mais simples. Entretanto, quando surgem muitos tons de cinza, as coisas se complicam muito”.

Jornal da Unicamp - O senhor ocupou as mais destacadas funções na Unicamp, inclusive a mais importante delas, de reitor. Também foi presidente da Fapesp, secretário de Estado e recebeu diferentes tipos de honrarias. Que importância tem o título de professor emérito que o senhor acaba de receber da Universidade?

Carlos Vogt — Do ponto de vista da relação com a Unicamp, onde eu pude cumprir toda a minha carreira acadêmica e profissional, penso que é uma forma de reconhecimento recíproco. De um lado, há o reconhecimento da Universidade, através dos seus órgãos de representação, que acataram a sugestão de concessão do título feita pelo Departamento de Linguística, minha célula de origem. De outro lado, é uma forma de reconhecimento minha em relação à instituição. Eu sempre tive com a Unicamp uma relação de afeição. Essa relação criou, digamos assim, uma subjetividade na qual se estabeleceu um modo de convivência importante para mim e também para a Universidade. As duas partes conseguiram enriquecer essa relação de diferentes maneiras.

JU - Quando exatamente teve início essa relação?

Vogt - Na primeira vez que visitei a Unicamp, eu ainda era garoto. Meu primeiro contato com a Universidade foi em 1969. O campus de Barão Geraldo era um canteiro de obras. A Reitoria funcionava no Centro de Campinas. A parte administrativa funcionava onde hoje está o Cotuca. Aqui havia somente alguns barracões. Eu vim para conversar com o professor Fausto Castilho para tratar da minha possível participação no grupo que criaria o Departamento de Linguística. Isso foi em outubro de 1969. Em novembro eu fui contratado. Depois, fui para a França para fazer o mestrado. Em 1970 eu já estava aqui dando aula junto com meus colegas de departamento. A partir daí eu fui desenvolvendo com a Universidade uma relação que meu trouxe muita satisfação e alegria. É verdade que eu e outros professores passamos por momentos críticos dentro da Unicamp, mas também por momentos de consolidação da instituição. Isso ajudou a criar amarras afetivas e sentimentais.

JU - O projeto de criação do Departamento de Linguística foi considerado muito ousado para a época, não?

Vogt - Sim, foi um projeto novo e ousado. Diferentemente da tradição, nós optamos por vincular o departamento ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas [IFCH] e não a uma faculdade de Letras. Era um projeto novo do ponto de vista da ambição, num momento em que a Linguística era apontada como a ciência-piloto dentro das Ciências Humanas, sobretudo na perspectiva do Estruturalismo e da Gramática Transformacional. Era um momento em que se pretendia, com a Linguística, criar um modelo epistemológico que pudesse trabalhar o desenvolvimento das Ciências Humanas. Era um modelo extremamente original. Para minha satisfação pessoal, eu entrei num processo que já estava “turbinado”, tanto pelos sonhos do professor Fausto Castilho quanto pelo entusiasmo do professor Zeferino Vaz. Então, eu tive a oportunidade de viver a infância, as crises de adolescência e a maturidade da Universidade.

JU - Por falar em amadurecimento da Unicamp, o senhor esteve à frente de vários projetos que contribuíram para o desenvolvimento da Universidade. Destacaria alguma dessas iniciativas?

Vogt - Como gestor, eu tive a oportunidade de contribuir para a consolidação da Universidade. Isso foi feito, por exemplo, com o Projeto Qualidade, que impulsionou a qualificação acadêmica dos nossos docentes. Também tive muita satisfação em criar as condições para o lançamento do Escritório de Transferência de Tecnologia e para a abertura dos cursos noturnos. Depois, quando deixei a Reitoria, tive a oportunidade de criar o Labjor [Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo], junto com o Alberto Dines e o professor José Marques de Melo, por meio do qual oferecemos o primeiro programa de pós-graduação do Brasil em jornalismo científico e cultural e, posteriormente, o mestrado.

JU - Com base em toda a experiência que o senhor mesmo relatou, como enxerga o futuro da universidade pública no Brasil, o da Unicamp em particular?

Vogt - Eu tenho a impressão que a universidade pública no Brasil tem dois grandes desafios a enfrentar. Um deles está relacionado com os passos a serem dados na direção da consolidação do papel das instituições na pesquisa e na produção de novos conhecimentos. Penso que a universidade consolidou a sua capacidade de atuação na área de pesquisa, inclusive com inserção internacional. Agora é preciso que ela se abra para atrair pesquisadores de fora, que venham buscar aqui referências para o desenvolvimento dos seus estudos. Nesse sentido, penso que um dos projetos que a Unicamp poderia assumir seria um programa voltado para o pós-doutorado. Algo que se constitua em ação institucional e estratégica.

Pensando no ensino, acredito que a Universidade tem um grande desafio, que seria elaborar um plano de expansão de oferta de vagas na graduação. Não se trata de tarefa trivial, obviamente. Mas vamos ter que enfrentar as dificuldades. Essa tarefa pode ser facilitada se formos além dos limites impostos pelas metodologias e tecnologias tradicionais ligadas à educação. Com as limitações que temos no momento, é difícil pensar que vamos conseguir cumprir as metas contidas no Plano Nacional de Educação, que fala na inclusão de 37 milhões de alunos nos próximos dez anos.

Nesse sentido, penso que é fundamental que as nossas universidades públicas, a Unicamp inclusive, exerçam um papel de liderança na adoção de recursos baseados nas tecnologias da comunicação e da informação, para que seja possível desenhar um grande projeto de política pública capaz de cumprir as metas dadas. Os objetivos são ambiciosos, mas factíveis, principalmente se aproveitarmos esses novos recursos. Obviamente, eu falo isso pensando na Univesp [Universidade Virtual do Estado de São Paulo, da qual é presidente], que tem não apenas um forte relacionamento com as universidades, mas também a capacidade de, junto com elas e com o Centro Paula Souza, conduzir um processo nesse sentido. Se quisermos contribuir para o avanço econômico e social do país, isso precisará ser feito.

JU - Como coordenador do Labjor, de que forma o senhor tem acompanhado a crise pela qual atravessa o jornalismo brasileiro?

Vogt - Essa crise tem, em boa medida, relação com o que falei sobre a educação. Cada vez mais, surgem desafios. Ao mesmo tempo, ocorrem mudanças no cenário das comunicações. No caso do jornalismo, toda a questão está relacionada com as novas mídias, que criaram e vão continuar criando novas condições de comunicação e informação. Essas novas mídias, se não forem incorporadas, tenderão a produzir situações negativas para a atuação da imprensa dentro de um modelo tradicional. Os jornais, por exemplo, já têm uma forte presença no campo virtual, com seus sites, blogs etc. Essas novas tecnologias mudaram não somente o plano de negócio das empresas jornalísticas, mas também as condições de relacionamento entre o emissor e o leitor.

Tal dinâmica é muito forte. Os jornais já não têm mais o papel de informadores. Hoje, cumprem uma função muito mais analítica. Do ponto de vista do espaço de circulação, os jornais sofreram uma importante restrição. Basta ver que alguns são distribuídos gratuitamente no semáforo, trazendo ao leitor uma sinopse das notícias. Ou seja, mudou o perfil do negócio. Essa mudança foi percebida rapidamente por alguns, que se adaptaram. Outros, entretanto, levaram mais tempo para perceber. De todo modo, penso que os jornais não vão desaparecer, mas vão mudar a sua organização e as formas de relação com o público leitor.

JU - Qual a sua avaliação sobre a qualidade da divulgação científica no Brasil?

Vogt - O Labjor acompanhou as transformações que ocorreram nesse segmento. O Labjor foi criado em 1994. Em 1997, propusemos a criação do curso de especialização, que teve início em 1999; veio depois o mestrado em 2008 e estamos, agora, com o projeto de doutorado tramitando na Capes. A especialização foi o primeiro curso dessa natureza no país. Formamos muitos profissionais e fomos assistindo ao nascimento de várias iniciativas que mostraram quanto o jornalismo científico e a divulgação da ciência estavam se organizando, se desenvolvendo e se institucionalizando. Ao mesmo tempo, as próprias instituições de fomento foram se dando conta disso. A Fapesp criou programa de bolsas. O CNPq também tomou iniciativas importantes no sentido de valorizar a atividade de divulgação que acompanha a pesquisa. Em vários dos programas da Fapesp, há o estímulo ao pesquisador para criar formas de comunicação com a sociedade. Ademais, a questão da comunicação da ciência passou a integrar uma necessidade da sociedade contemporânea. A sociedade foi formando consciência de que uma de suas características fundamentais é estar sustentada pelas tecnologias de informação e comunicação e, consequentemente, pelo desenvolvimento científico. O conhecimento, nesse sentido, é fator estruturante das relações sociais. Nunca é demais lembrar que não há ciência sem comunicação. É sob a forma da comunicação que se dá a validação ou a refutação de testes e propostas.

Mais que isso, o papel da ciência na sociedade é tão importante que os modelos de governança da própria ciência foram mudando. Aquilo que era algo particular dos cientistas ou dos governos passou a necessitar de uma participação cada vez mais aberta da sociedade, que por sua vez ampliou a sua influência sobre as decisões de governança da ciência. Penso que ainda há muito espaço para se trabalhar nesse campo.

JU - Perguntando agora ao linguista, poeta e escritor. Quais os papéis da linguagem e da poesia num contexto em que as relações humanas são fortemente marcadas pela instantaneidade e pela efemeridade?

Vogt - A questão da instantaneidade constitui também um grande desafio. Uma condição que permite que alguém construa uma narrativa sobre o mundo é o distanciamento mínimo de tempo e espaço em relação ao acontecimento. Não é possível narrar o acontecimento enquanto ele está acontecendo. É possível descrevê-lo, como faz o locutor de futebol. Mas não é possível narrá-lo. Essa distância representa uma “encrenca”. Nós temos uma sociedade na qual a versão caminha simultaneamente com o acontecimento. De certa maneira, isso retira do acontecimento a sua ontologia, que é transferida para a representação do acontecimento. Isso passa a dar realidade e concretude não ao que se representa, mas à sua representação. Essa é uma questão que traz obviamente várias consequências.

Penso que essa reflexão precisa continuar a ser feita por diferentes áreas, como a filosofia e a literatura. Pode ser feita também pela poesia. Penso que a poesia tem um papel importante nesse processo na medida em que ela, como expressão poética do mundo, contribui para divulgar o conhecimento científico. Hoje, o conhecimento científico se faz e se produz por meio de uma linguagem altamente codificada, num nível em que apenas os iniciados conseguem estabelecer efetivamente a comunicação. Há, portanto, a necessidade de se buscar formas de comunicação da ciência que não fiquem restritas ao círculo dos iniciados.

Essas formas de comunicação precisam promover a abertura da linguagem. A linguagem precisa sair do nível de abstração da pura demonstração lógica para ingressar no campo da comunicação sensível. É preciso sair da expressão digital da linguagem para a expressão analógica, baseada nas metáforas, nas imagens etc. Em outras palavras, é preciso sensibilizar os conceitos para que a sociedade como um todo consiga acompanhar, tendo como referência a sua própria vivência. O desafio é sair de uma comunicação fechada para uma comunicação aberta. Trata-se de um processo de aprendizado para todos, inclusive para cientistas e jornalistas. Esse trajeto, que vai do hermético para o aberto, é o trajeto que vai da linguagem da ciência para a poesia. A poesia tem, portanto, papel-chave nesse esforço de comunicação.

JU - Em seu livro “A Utilidade do Conhecimento”, lançado em maio deste ano, o senhor estabelece conexões entre o conhecimento e os princípios da ética. Nestes tempos de atentados profundos à ética, que conhecimento nos falta para revigorarmos esses princípios?

Vogt - Uma das grandes conquistas do mundo ocidental teve origem na sociedade grega dos séculos VI e V antes de Cristo. Foi o momento do nascimento da tragédia grega como gênero literário e também da filosofia. Esse instante foi importante porque estava ocorrendo a transição de uma sociedade organizada sob os princípios das relações heroicas e da concepção da justiça como vingança, para uma sociedade que começa a estabelecer os parâmetros da justiça social. Os conflitos deixam de ser resolvidos pela luta para serem resolvidos pelo conjunto da sociedade, por meio dos seus representantes.

A tragédia é importante porque procura representar esse estado de coisas, essa transição. Desse ponto em diante, todo o processo vai sendo sofisticado com o decorrer dos séculos: as instituições vão se consolidando e a democracia vai amadurecendo. A despeito disso, ainda convivemos hoje com muitas trevas, inclusive aquelas presentes no ser humano. Recentemente, tivemos o episódio daquela chacina em São Paulo, cuja motivação foi a mais primitiva possível - a vingança. Temos um quadro em que a sociedade avança e as instituições se fortalecem, mas ao mesmo tempo continuamos convivendo com os instintos primitivos da nossa herança biológica.

A questão ética não é simples, e é menos simples ainda numa sociedade como a nossa, que é polifônica, multifacetada e fragmentada do ponto de vista dos valores e ideologias. Então, encontrar faróis que joguem luz sobre os comportamentos não é fácil. Quando o mundo é dividido apenas entre bem e mal, isso se torna um pouco mais simples. Entretanto, quando surgem muitos tons de cinza, as coisas se complicam muito.

JU - O senhor tem novos planos para a Unicamp?

Vogt - Bem, eu continuo atuando no Labjor. O projeto novo é a implantação do programa de doutorado, cuja proposta está em tramitação. Também sigo trabalhando na Univesp dentro da linha do meu comentário anterior, de estabelecer condições para o desenvolvimento de um projeto de expansão da graduação do Estado de São Paulo, em colaboração com as universidades públicas, o Centro Paula Souza e o governo estadual.

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