Blog Unicamp Ano 50



‘A longa crise brasileira’ é debatida em evento

15/03/2016 - atualizado em 29/03/2016
Mário Bernardini, Wilson Cano e Cláudio Violato. Foto: Antoninho Perri

A série Perspectivas Unicamp 50 Anos foi retomada nesta terça-feira com a mesa-redonda “Economia brasileira: retomada possível do crescimento?”, tema atualíssimo e discutido por especialistas renomados da área. Wilson Cano, Luís Gonzaga Belluzzo, Rubens Ricúpero, Carlos Lessa, Cláudio Violato, Mário Bernardini e Leda Paulani compuseram duas mesas: “Desindustrialização: políticas de Estado para a recuperação industrial” e “A longa crise brasileira: saídas possíveis para superá-la”, que tomaram todo o dia no Centro de Convenções.

“Perspectivas Unicamp 50 Anos é uma série de eventos oferecidos para a sociedade, por acreditarmos ser importante que a Unicamp mantenha sua liderança, seu protagonismo crítico na discussão de questões fundamentais para a contemporaneidade”, disse a professora Ítala D’Ottaviano, coordenadora da comissão que organiza as comemorações do cinquentenário da Universidade. “Os temas escolhidos abarcam questões nacionais, internacionais, sociopolíticas, econômicas, educacionais, científicas e artísticas. Já tivemos três dias de eventos no ano passado e hoje abrimos a série para 2016 com um tema profundamente instigante e oportuno para a sociedade brasileira”, completou.

O professor Wilson Cano, coordenador das Perspectivas e também deste evento pelo Instituto de Economia (IE), informou que na mesa da manhã, composta por Cláudio Violato e Mário Bernardini, seria discutido um dos aspectos da crise da economia brasileira, a desindustrialização, debatendo-se os conceitos de industrialização positiva e industrialização precoce ou nociva; problemas da competitividade, produtividade, câmbio, juros e financeirização; desconcentração regional, guerra fiscal e desindustrialização; e o “efeito China”. A discussão da crise econômica em geral mereceu o período mais elástico da tarde.

Wilson Cano começou explicando o conceito de industrialização positiva, fenômeno ocorrido nos Estados Unidos e na maior parte da Europa ocidental. “Em todo país desenvolvido, que atingiu um nível de produção elevado e com renda per capital de 40 ou 50 mil dólares, o setor industrial costumava perfazer de 35% a 40% do PIB. A partir desse ponto, o setor de serviços, principalmente, começa a ser muito mais exigido, por força da própria industrialização que propiciou uma maior urbanização. Os serviços crescem não só porque cresceu a urbanização, mas também porque a indústria se torna mais complexa, demandando mais serviços como de engenharia, designer, marketing, assistência técnica, etc. Daí, é natural que a indústria já não cresça a taxas similares ao PIB, deixando de pesar menos, descendo a 25% ou 20%, enquanto os serviços explodem – esta é a chamada ‘desindustrialização’ natural, mas em que o setor não perdeu nada, pois a produção se manteve.”

O caso do Brasil, segundo observa o professor do IE, é completamente diferente. “A nossa indústria havia atingido algo como 30% do PIB em 1970, e estava para dar o grande salto para a industrialização, juntamente com a Coreia do Sul; não demos salto algum, enquanto os coreanos foram em frente. Enfrentamos a crise da dívida externa nos anos 80 e depois a abertura comercial e financeira decorrentes da política neoliberal a partir dos 90. Isso desnudou a indústria nacional para a competição internacional: taxa de câmbio sumamente valorizado e o dólar muito barato, tarifas rebaixadas e juros no céu, resultando nas piores condições para que a indústria de um país possa continuar a crescer. Esta é a diferença entre a industrialização positiva e a precoce ou nociva.”

Para alguns economistas, a indústria dos países desenvolvidos também perdeu fôlego, o que é um equívoco, na opinião de Wilson Cano. “É uma falsa perda, pois a norte-americana Apple, por exemplo, hoje em dia não produz um parafuso sequer para seus computadores, quase tudo é feito na China, Vietnã e Coreia. No entanto, a empresa controla e absorve 45% do valor adicionado aos equipamentos que ela, na verdade, não produz. Houve um deslocamento de fábricas da Apple? Houve. Mas teria perdido? Não, porque ela ganha o mesmo (ou mais) na base financeira e não mais na base produtiva. Todos os países desenvolvidos adotaram esta prática, sobretudo os Estados Unidos, evidentemente.”

Cláudio Violato, que foi vice-presidente da Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) e presidiu a Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (ABIPTI), abordou a desindustrialização com foco maior no setor de telecomunicações. “Há aspectos específicos, ligados a modelos de operação, evolução tecnológica, regulamentações e privatização que afetaram a conformação da indústria brasileira de telecomunicações. Em certas fases, ela foi estimulada e fortalecida pelo sistema nacional de inovação, em outras esse estímulo foi bastante reduzido e, na situação atual, é extremamente importante um novo estímulo ao conteúdo de tecnologia nacional. Isso é o que permite a geração de emprego de alto nível, o aproveitamento de competências das universidades e institutos de pesquisa e o aumento do poder de negociação do país, gerando a riqueza essencial para promover o progresso da nossa sociedade.”


Mais de 30 anos de crise

“A longa crise brasileira” foi debatida na parte tarde, em que foram analisadas as possibilidades para as reformas econômicas (e políticas) necessárias e indispensáveis à retomada do crescimento; e a inexorabilidade da revisão de nossos compromissos externos. Na mesa, o professor Carlos Lessa, que foi reitor da UFRJ e presidente do BNDES; Leda Paulani, professora da FEA/USP e ex-secretária de Planejamento da Prefeitura de São Paulo; Luís Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp e ex-secretário do Ministério da Fazenda; e Rubens Ricúpero, diplomata e ministro da Fazenda no período de implantação do Plano Real.

Antecipando que seriam discutidas várias dimensões da crise econômica brasileira, Wilson Cano ressaltou que ela já tem duração de mais de 30 anos, reiterando os efeitos da crise da dívida externa nos anos 80 e das concessões do país ao capital financeiro a partir dos 90. “Tudo isso afetou a economia no seu conjunto, mas muito mais a indústria do que os demais setores. Lula teve a sorte de pegar um vento pela popa de 2003 a 2008, e Dilma, o azar de um vento pela proa; Fernando Henrique não teve nem um, nem outro, e a taxa de crescimento no seu governo foi a pior das últimas décadas. O Brasil vem sofrendo de percalços internos e externos, de erros de política macroeconômica e de uma covardia de todos esses governos, sem exceção, em não enfrentar a questão politicamente e defendendo os interesses efetivamente nacionais. Nossa economia padece de problemas estruturais, que precisam ser mitigados para a retomada das discussões de uma política nacional que, infelizmente, a crise política está obstaculizando.”

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