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Vírus e bactérias como promotores de saúde

A professora Maria Silvia Viccari Gatti mostra a beleza e as surpresas positivas das relações entre vírus, bactérias e seres humanos

20/06/2016 - atualizado em 20/06/2016
A professora Maria Silvia Viccari Gatti, do Instituto de Biologia da Unicamp, ministrou a palestra "Vírus e bactérias: surpresas no nosso cotidiano”. O evento ocorreu no sábado (18) como parte da série Colóquios Unicamp Ano 50 - de professor para professor, que celebram o cinquentenário da Universidade. 18 de junho de 2016. Foto: Antoninho Perri/Ascom

Milhares de bactérias e vírus vivem no nosso organismo e ao nosso redor. Apenas 1% deles tem caráter patogénico, são causadores de doenças. Os outros 99% são inócuos ou benéficos aos seres humanos e outros seres vivos. Na palestra "Vírus e bactérias: surpresas no nosso cotidiano”, a professora Maria Silvia Viccari Gatti, do Instituto de Biologia da Unicamp, explicou como esses seres, tão temidos, tem papel fundamental em nossa saúde e para a própria evolução da espécie. O evento ocorreu no sábado (18) como parte da série Colóquios Unicamp Ano 50 - de professor para professor, que celebram o cinquentenário da Universidade.

Apesar do senso comum relacioná-los diretamente a doenças e a indústria oferecer cada vez mais produtos que prometem sua eliminação, vírus e bactérias são elementos essenciais para uma vida saudável. O conjunto de bactérias, vírus, fungos, ou melhor dizendo, microorganismos simbiontes, que temos em nosso corpo é chamando microbiota. “Cada ser tem a sua microbiota, com aproximadamente 600 espécies diferentes”, explica Gatti. "Nós temos bactérias em nossos olhos, por exemplo, que não causam doenças, que nos protegem de outras bactérias. Elas são responsáveis por nossa saúde.”

A professora destaca a importância de manter o equilíbrio dessa microbiota e aponta a utilização sistemática de desodorantes antitranspirantes, sabonetes íntimos e enxaguatórios bucais como potencialmente nociva a esse equilíbrio. "Você está dizendo para sua microbiota não crescer. Isso não é bom, você está desequilibrando processo.”, explica Gatti. Além da ação anti-séptica, os antitranspirantes barram um mecanismo fisiológico de controle da temperatura corpórea, a transpiração, afetando a composição da microbiota. “O uso de desodorantes antitranspirantes no Brasil é totalmente equivocado. Você precisa suar”, argumenta a professora, lembrando que em outros países esses produtos são utilizados como medicamentos.

O uso de antibióticos também é apontado pela professora como desregulador da microbiota humana. Segundo ela, o remédio não age apenas combatendo a infecção indesejada, ele destrói parte da microbiota do indivíduo, deixando seu organismo fragilizado. Assim, ficamos mais vulneráveis a outras doenças. “Uma bactéria exógena (de fora) pode entrar no seu organismo e causar uma doença. Ou mesmo uma bactéria endógena (de dentro). Pois, quando vc desequilibra, mesmo uma bactéria sua pode te causar doenças”, ressalta.

Outro fator que pode prejudicar o equilíbrio da microbiota são os hábitos alimentares. Segundo a professora, comer pouca fibra e alimentos muito processados pode favorecer a multiplicação de uma bactéria ou um conjunto de bactérias, em detrimento de outras. Esse desequilíbrio, além de deixar o sujeito mais suscetível a infecções, pode levar ao aparecimento de enfermidades como diabetes e obesidade. Essas enfermidades estão associadas a baixa diversidade bacteriana, característica em indivíduos com dieta pobre em fibras.”As bactérias se alimentam das fibras, assim podem estar presentes para ajudar a gente a degradar outros alimentos. A gente tem que comer fibras”, enfatiza Gatti. Segundo ela, estudos apontam ainda para relação entre o desequilíbrio da microbiota e o desenvolvimento de outras doenças como depressão, esquizofrenia e ansiedade.

Aleitamento materno, alergias e intolerância a lactose
A professora chama atenção para importância do aleitamento materno no estabelecimento da microbiota dos indivíduos. Segundo ela, o aleitamento é responsável pela introdução sistemática de bactérias que permitem a formação equilibrada da microbiota e o estimulo adequado ao sistema imune. O estimulo inadequado do sistema imune produzido pela utilização de fórmulas, por sua vez, pode levar ao aparecimento de alergias. “Várias alergias são decorrentes do não aleitamento materno”, conta Gatti.

Já o consumo de leite e derivados na idade adulta foi destacado pela bióloga como impróprio. Ela explica que as bactérias presentes na microbiota da criança que permitem a degradação eficiente do leite, não estão presentes da mesma maneira nos adultos. "Depois de uma certa fase da vida a gente vai ter de 9 a 10 enzimas para quebrar os alimentos para que possamos aproveitá-los. Algumas pessoas tem bactérias para quebrar a lactose, outras não tem”, explica Gatti, destacando que esses são casos chamados de intolerância a lactose.

A medida certa entre limpeza e sujeira
De acordo com a professora, o asseio é fundamental na prevenção de doenças, mas deve ser feito sem exagero. "É importantíssimo lavar as mãos com água e sabão todas as vezes que chegamos em casa. Quando você lava as mãos retira bactérias e sujidades”, explica a professora. Ela ressalta que o álcool gel 70%, apesar de eficiente para eliminar bactérias e vírus que tem envelope (como é o caso da gripe), não substitui a água e sabão. “O álcool não retira as sujidades”, pontua.

Co-evolução
A presença de bactérias e vírus nos seres humanos é tão profunda quanto seu genoma. "Há cerca de 19 genes virais no nosso genoma, genes que recebemos dos vírus. E temos genes de bactérias também. É uma forma de transmissão que nos chamamos de 'transmissão horizontal’”, ensina Gatti. A professora assinalou uma teoria segundo a qual nossa capacidade cognitiva derivaria de um gene recebido de um vírus. Segundo essa teoria, "nós falamos porque nos fomos infectados por um vírus que co-evoluiu com a gente”, observou a bióloga.


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